Pois logo a mim,
tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto – uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.
Clarice Lispector
Estou embriagada de vida. E de vida morro todos os dias.
Nariz gelado. Rosto corado, orelhas vermelhas, vento frio no cabelo. Brisa na nuca. Sopro quente na nuca. Sardas, franjas, unhas vermelhas curtas, pés embaixo do cobertor, edredon, sofá e travesseiro, cama. Cama filme chocolate vinho chuva no telhado escuro woody allen férias horas eternidades. Rosas enroladas no jornal, gotas de chuva na janela do trem, all star e calça jeans, filhotes, ossos. Música. Frutas, flores, cheiros, sol quente na grama, olhos, lindos olhos. Franja, lindos olhos, queixo, olhos fechados, voz, risada, sussurro. Whispering. Olhar de medo, olhar tímido, olhar de melancolia. Abraço. Livros não, O livro. Sorrir sozinha. Morrer de vida sozinha. Querer morrer de vida junto. Morrer num suspiro de felicidade à noite na varanda. Galocha na chuva. Borboleta solitária. Botas. Batom vermelho. Dor com doçura. Clarice. Tristeza. Chegada, partida, despedida, beijo na testa, beijo na orelha, beijo. Ca-ri-nho. Preto e branco, pôr-so-sol, estrelas, estrelas no campo, andar pela cidade, desconhecidos, café, manjericão, pimenta, cartas. Saudade. Nadar no mar. Andar descalço. Chorar. Ferir e curar. Implorar. Rir de doçura. Ver, tocar, cheirar. Aninhar. Rasgar. Vestir e despir. Pintar e borrar. Morder. Sumo escorrendo. Veneno. Veias, muitas veias. Transcender. Entender. E sem entender.
Amor.
“A esperança era o meu pecado maior.”
janeiro 10, 2012 às 2:39 pm
E o sangue assim pulsa…