Ah, e dizer que isto vai acabar,
que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.
Clarice Lispector
Há quanto tempo eu não escrevo.
Há quanto tempo eu não leio.
Tem dias que eu me esforço pra fazer da vida uma loucura. Uma brincadeira, um faz de conta que é, umas verdades inventadas. Eu tento enganar o tempo inventando aventuras breves e criando infinitos pra amanhã não chegar, porque a rotina às vezes fadiga, e ao invés de viver eu tolero. Eu vou tolerando meus desprazeres e maquiando meus dias para que fiquem lindos e arrumados e eu mesma me maquio, tentando acreditar que todo dia pode ser uma festa.
Mas a festa sempre acaba, e sou eu que arrumo a bagunça.
Hoje à noite eu queria uma fantasia, um pedaço de sonho e de nuvem como num filme, como num romance, uma história que contam pra gente dormir. Poderiam até me contar uma história pra dormir. Mas hoje eu não tenho esse acalento. A forma de amor que me aquece agora é um prato de comida caseira que me faz feliz e agradecer, mas eu sou ambiciosa e queria algo mais. Pra ser específica, queria uma surpresa. Clichê é o que se repete com freqüência, certo? Então um buquê de flores e uma caixa de bombons não são clichê pra mim.