Sou um coração
batendo no mundo
Clarice Lispector
Venho aperfeiçoando a arte de ser dialética. Não é universal, é segundo meu próprio estilo, porque sei como ser clara e ser turva, e vocês acenam que sim mas nunca entendem tudo. Ao ouvir algumas pessoas, eu tenho a impressão de lê-las. Não é que eu seja boa, porque não sou, é que vocês, principalmente os homens, sabem ser mais diretos e práticos do que eu. Eu tenho um ouvido prático, mas também ouço o ruído das entrelinhas.
Eu estou faiscante. Em fagulhas. Mas sou pacífica, vou me cozinhando a fogo baixo e diluindo com água fria esses temperos picantes, mas sinto que meu tempo é cada vez menor. Um dia os aborrecimentos podem ser mais constantes do que os prazeres. Um dia eu posso cansar de me esforçar. Um dia eu posso desistir de fazer o melhor. Não é que eu faça o melhor. Eu tenho plena consciência de que sou irracional e irritante, mas dentro de mim os esforços e os desejos de fazer tudo certo são tão fortes que quando dá errado, o buraco é tão fundo que parece não ter fim. O mais importante não é ser perfeita. Mas eu sou insistentemente dedicada.
A minha forma de discutir parece cada vez mais madura, razoável. Eu sou ponderada, sei reconhecer meus erros, estou disposta a entender o outro lado. Sou quase adulta, né? Mas o cerne das minhas discussões é sempre infantil. Porque apesar de tudo eu ainda guardo um pedaço de um coração bom e burro, extremamente cego mas muito intuitivo. É natural que compensemos nossas deficiências.
fevereiro 15, 2011 às 11:05 am
Ainda não estou muito certo se o verdadeiro adulto é aquele que tem mente sábia e coração infantil. É difícil de ver, especialmente quando os outros criam uma fumaça ao seu redor e vc realmente nem consegue ver o espelho.
Decidi que sou louco. Sim, qual é o problema? Sempre quis ser ‘normal’ e nunca consegui. Descobri que nunca quis ser normal. Depois de aceitar a realidade, começaram a me chamar de estranho e criança pelo menos duas vezes ao dia. Aceito. Sim, sou estranho, mas pelo menos estou me aceitando assim. Se quiserem ser meus amigos, que aceitem minha criatividade.
Às vezes olho algo e lembro: ah se eu tivesse a chance de ter visto isso quando criança. Às vezes olho para algo e penso: eu quero comprar isso, sei que é inútil e não vou usar com frequencia, mas a criança em mim quer ter esse sonho realizado.
Definitivamente não sei quantos anos tenho. Já me perguntaram. Disse 19 ±7 (essa é a margem de erro)