Olhe,
tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.
Sou irritável e firo facilmente.
Também sou muito calmo e perdôo logo.
Não esqueço nunca.
Mas há poucas coisas de que eu me lembre.
Clarice Lispector
Não quero ser o que eu não sou. Logo eu, que nunca gostei dessa parte de mim. Mas tentar me mudar é pura rebeldia, tudo porque odeio esse embrulho no estômago que me dá às vezes. É tão ruim que me dá vontade de contorcer o rosto e morder a mão – doer mais do que já está doendo - e nadar até a rebentação. Eu odeio esses ódios com sombra de inveja. E na verdade é sombra porque não sei se é mesmo inveja, eu fico tão zonza de querer parar de pensar que acabo não pensando mesmo (ou aumentando o volume). Como se não bastasse todo esse barulho vem aquele medo de arrependimento mas eu não me arrependo, eu levo dias tomando decisões porque eu não me arrependo, eu quero fazer sempre o que eu quero e aqui está algo que eu penso todos os dias: eu odeio ser mandada. Eu não gosto de proibições. Eu sempre cedo, mas não se você me provocar. É preciso muita calma e jeito com meu orgulho, porque ele é selvagem e nem eu consegui domá-lo. Eu tenho muito ímpeto mas também muita calma, eu mordo minha língua e engulo palavras mais do que digo. Venho me esforçando muito pra conversar comigo e não incomodar os outros, porque às vezes acabo até mais ferida: parece que o que eu digo não faz sentido e nem tem importância. Como é que pode se isso me magoa tanto? Eu sou um poço de sensibilidade e não queria, eu queria ser indiferente mas não consegui. Eu tentei mentir e não consegui. Eu tentei me enganar mas há coisas que pulsam independente das nossas vontades. Sou uma tirana que deseja intimamente que todos sejam iguais, e não há como! Não amaria ninguém que fosse parecido comigo. Dentro de mim eu nunca fui livre, e invejo tanto essa liberdade espontânea. Eu quero mas eu vivo sem fazer o que eu quero. É como se eu estivesse trabalhando mesmo quando estou em casa. Ninguém me conhece por inteiro porque eu me ponho rédeas e só converso às vezes comigo. Mas quando eu sou atravessada por essa felicidade sem motivo, quando eu abro a porta de manhã cedinho cantando e sentindo a umidade do céu cinza… Eu falo, eu falo, e sou feliz por não fazer sentido. Tudo, as coisas são simples e bonitas e de tão bonitas me fazem sangrar e correr e cantar e amar. Mas eu também sou rancor, eu sou doce mas sou amarga, eu sou vida mas também sou parte atrofia e até necrose. Não, acho que não é isso. Eu sou toda vida mas há vida que pulsa com agulhas, e toda vez que respira e se expande dói e dá tristeza. Mas eu amo, eu amo cada pedacinho tosco disso que eu sou, até os meus erros idiotas que eu odeio eu amo. Eu me odeio quanto tenho medo. Mas acho que continuo me amando mesmo assim. Até quando durar.
outubro 10, 2010 às 8:28 pm
Soube que vc ainda continua sumida, ai ai
vc não tem jeito, heim?
gostei do formato do post, parece um poema em prosa.
Seus posts são legais pq vc se mostra uma pessoa com personalidade flutuante, mas a pessoa que se ve desse modo tem um tanto de sensatez. Só pode!
Eu não conheço essa isis, conheço a isis que é produto disso, então não ouso comentar muito, mas eu vejo uma razão por traz da loucura, e sim, todos devemos ter loucuras, e perder a cabeça num mar de pensamentos e ações involuntárias, mas não podemos deixar a loucura chegar nos pontos mais sensíveis, se não nos perdemos internamente em uma ação atrofiada.
Não sei se fez sentido o final, foi mais inspiração do que lógica.