…e não só o pavor no olhar mas as mãos trêmulas, ela não o olhava mas sim para as mãos, então ele segurou seus pulsos e a beijou firme, porque delicadeza não a traria de volta.
Sua respiração oscilava entre a esquerda e a direta do peito mas apertado, o ar mal entrava e já saía como fio de nuvem, e ela não sabia por que mas aquilo começava a incomodar, talvez o número de pessoas à sua volta nessa metrópole, talvez o fato de que não havia comido hoje.
Havia algo imenso, sim, ela podia sentir. Vinha como uma grande onda que engolia, triturava, e a cuspia de volta na areia como se nada tivesse acontecido. Ela tinha vontade de chorar. Mas o mar sempre se acalmava. O que acontecia, isto é, os fatos, as crises vinham mais fortes e constantes. Os intervalos. É preciso descer, é preciso respirar, é preciso fazer uso dos pontos finais mas sua vida é uma vírgula atrás da outra, e ela pensa que vai morrer. É uma intensidade sufocante, e diz pra si, eu preciso, eu preciso disso. Mas amanhã não virá. Amanhã o mar vai estar calmo e veremos nosso reflexo nítido, não mais aquela confusão criadora. Mas eu preciso criar, pensa.
E ela sorri. Aqui, dentro dessa caixa. E odeia. Odeia que mexam tanto, odeia mas precisa disso, e assim passa a gostar. Mas odeia que sejam por aquelas palavras, se recusa a admitir que sejam aquelas palavras porque elas vem de perguntas que não tem respostas certas e é uma angústia viver com uma pergunta que não pode ser feita. É sim, tem medo de perguntar.
Tem medo de não durar. Ela. Você volta, se for embora? Eu não sei, responde. E diz pra ele, Se eu for embora e não voltar mais, você vai ser diferente?, Não, eu ainda vou estar o mesmo. Talvez ela precisasse que ele fosse diferente. Segunda pergunta sem resposta. Você gosta de mim hoje?, pergunta enquanto os dois olham o teto acima da cama. Depende de que dia é hoje, ele sorri. Eu amo esse sorriso. É como a morte. E como a morte também, difícil de explicar. Eu que sublinhava as frases nos livros, agora marco palavras dentro de mim.
It’s a funny thing, you know?
O tempo passa quadrado. Nessas ruas que não poderiam ser ruas quaisquer, já que cada rua é uma vida diferente. As ruas de Paris não são as ruas de Barcelona que, ai meu Deus, não são as ruas de Londres. Mas ela anda mais em algumas (às vezes as mesmas) ruas de Botafogo, mas hoje no Centro. Ela tem medo e não gosta de ninguém perto de si, e passa rápido. Muitas coisas irritam quando ela está assim, sensível. Na pele as feridas doem mais, no humor ela é tão calma e feliz que qualquer personalidade soberba torna propensa uma briga. Ela sente falta de pessoas que já morreram e ela nem conheceu, apenas o rosto e a voz. Mas ela sente como se estivessem ligadas. Os prédios são lindos, gostaria tanto de fotografá-los, olhando para cima disse.
Ela gosta de andar por essas ruas quando tem um rumo. É como se o fato de ter para onde ir a fizesse existir. Ter alguém para onde ir é pleno. Quando ela também é plena, pensa que pode não ter ninguém para onde ir. Talvez. Das janelas compridas ela vê a luz do Sol nas janelas dos prédios e nas árvores de folhas miúdas. Ela não pode sair porque espera por alguma burocracia. Seus joelhos doem, mas ela está calma. Não poder fazer nada é dar um tempo pra pensar no que quiser, sem culpa. E imaginar, ela adora imaginar. E sardas. E cheiro de bolo no forno. Às vezes ela se imagina fazendo peixes recheados de ervas e sobremesas fantabulosas na sua casa onde a cozinha é enorme. E ela faz isso por prazer, porque é bem sucedida no seu emprego e pode se dar o tempo de ter um hobbie. Seu marido sempre elogia, mas ele mesmo faz jantares românticos com direito a vinhos e velas e, por que não, massagem. Mas na verdade ela não sabe se quer casar. Já se passaram horas. Talvez minutos. Agora ela está morrendo de fome mas não pode sair, e prefere não pensar no que vai comer quando puder sair.
Sempre que fecha os olhos, ela o vê sentado numa cadeira tocando sua guitarra, olhando para os dedos. Seu cabelo, seus braços…
769. Só faltam 13 números.