toda a carne doendo como se um doce ácido a percorresse instantaneamente, deslizava para um martírio de compreensão e seus olhos se cobriam de úmida ternura. As pessoas eram tão ridículas!, tinha ela vontade de chorar de alegria e de vergonha de viver. Era essa a impressão.
O Lustre, Clarice Lispector
Clarice me lê.
Eu e meu coração não somos “nós” porque ele independe de mim. Posso apertar meus olhos no quarto escuro e silencioso num esforço de deixar de existir por alguns instantes, mas eu não esqueço de mim porque involuntariamente ele não pára de sentir. Eu lhe pedi que me deixasse perder a lembrança como faço com datas importantes e ao subir escadas. Mas ele não deixa. Pulsa, uma memória. Pulsa de novo, uma dor. Mas tal como separa o sangue venoso do arterial, nele coexiste desgosto e l’amour. Porque esse também é feroz e independente.
Quanto maior o tempo que fico longe dele, mais escuro fica… Mas quando vejo seu sorriso, tudo se ilumina de novo.
Talvez sejam apenas a tricúspide e a mitral e eu esteja enlouquecendo.







