E de súbito, sem esperar,

Postado em Uncategorized em Dezembro 4, 2009 por isisdesigner

toda a carne doendo como se um doce ácido a percorresse instantaneamente, deslizava para um martírio de compreensão e seus olhos se cobriam de úmida ternura. As pessoas eram tão ridículas!, tinha ela vontade de chorar de alegria e de vergonha de viver. Era essa a impressão.
O Lustre, Clarice Lispector  

Clarice me lê.

Eu e meu coração não somos “nós” porque ele independe de mim. Posso apertar meus olhos no quarto escuro e silencioso num esforço de deixar de existir por alguns instantes, mas eu não esqueço de mim porque involuntariamente ele não pára de sentir. Eu lhe pedi que me deixasse perder a lembrança como faço com datas importantes e ao subir escadas. Mas ele não deixa. Pulsa, uma memória. Pulsa de novo, uma dor. Mas tal como separa o sangue venoso do arterial, nele coexiste desgosto e l’amour. Porque esse também é feroz e independente.

Quanto maior o tempo que fico longe dele, mais escuro fica… Mas quando vejo seu sorriso, tudo se ilumina de novo.

Talvez sejam apenas a tricúspide e a mitral e eu esteja enlouquecendo.

  

Não me levem a sério,

Postado em Uncategorized em Novembro 27, 2009 por isisdesigner

Às vezes eu odeio homens. Vocês não, meus amigos, meu namorado, pessoas que declaradamente gosto. As mulheres são detestáveis, mas os motivos que me dão para desgostar-lhes é discreto. Tá, tá, eu generalizei na primeira frase. Agora vamos particularizar. (Plural? Eu e as bactérias da minha flora intestinal somos “nós”)

Odiei os homens num determinado dia da semana.  Quando eles são rudes. Um indivíduo no ônibus, sentado ao lado do filho, resmungava. Reclamou entre dentes cerrados com um garoto que esbarrou sua mochila tentando se locomover no microônibus super lotado. O filho protestou  alguma coisa inaudível sobre a reclamação do pai. No próximo ponto, vendo milhares de crianças da escola municipal passando pela catraca, o velho se levantou do banco(novamente murmurando) e saltou. O garoto não deveria ser má pessoa. Mas ao passar o resto da viagem ao seu lado percebi que, externo aos seus fones, o que se ouvia eram novamente interjeições odiosas e que contaminavam o meu lado de desconforto e desgosto. Esse foi um dos episódios do dia, mas houve também declarações machistas, escarradas no chão, et coetera. 

Acho que homens me irritam mais porque existem mulheres no mundo. Se elas não existissem(parem de considerar a sobrevivência da espécie e sejam hipotéticos), não haveria piadinhas sobre sexo frágil. Ou então todas as mulheres deveriam ter excelente raciocínio lógico e matemático, saber trocar lâmpadas. E algumas deveriam parar de ser cínicas, fazendo perguntas idiotas para chamar atenção de alguns homens idiotas que não reconheceriam uma mulher interessada nem se ela usasse uma placa de neon no lugar da roupa. Lembrei disso agora porque a última vez que presenciei uma cena dessas(deve ter sido hoje) tive náuseas.   

Eu não sei pra que tanto ódio, se as mulheres idiotas se relacionam bem com os homens idiotas e perto de mim só tenho homens de que gosto. Eu não escrevi isso pra ofender ninguém, só não tenho gostado muito da humanidade ao me redor. Nem de mim acho que gosto. Sou muito rabugenta.

  

Rondó pra você

Postado em Uncategorized em Novembro 27, 2009 por isisdesigner

De você, Rosa, eu não queria
Receber somente esse abraço
Tão devagar que você me dá,
Nem gozar somente esse beijo
Tão molhado que você me dá…
Eu não queria só porquê
Por tudo quanto você me fala,
Já reparei que no seu peito
Soluça o coração bem feito
De você

Pois então eu imaginei
Que junto com esse corpo magro,
Moreninho que você me dá,
Com a boniteza, a faceirice,
A risada que você me dá,
E me enrabicham como o quê,
Bem que eu podia possuir também
O que mora atrás do seu rosto, Rosa,
O pensamento, a alma, o desgosto
De você.

Mário de Andrade

 

Sou o que quero ser,

Postado em Uncategorized em Novembro 16, 2009 por isisdesigner

porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero.
Clarice Liscpector

Nunca senti uma variação tão intensa de humor. Em um segundo não sou capaz de controlar meu impulso de quebrar um vaso na cabeça de alguém, mas no próximo sou tão amável quanto um pote de balas carameladas. Light. A minha natureza sempre foi essa, de tratar tudo com muita naturalidade, sem burocracia, sem etiqueta. Se meu coração sibila que devo falar com alguém, não me interessa se é a vizinha, a ex-namorada, a escritora mais famosa e incomunicável do Brasil, eu pego telefone/email/endereço e vou atrás.

Você é louca? Se não ter medo é loucura, então talvez eu não seja normal. Eu não tenho medo de ameaças. Se alguém acha que tem algo a me dizer que seja direto e diga sem rodeios, que responderei com a mesma verdade com que me trata. Às vezes dizemos coisas que são aquilo que sentimos, mas nem sempre é real, nem sempre se concretiza. Um dia já quis quebrar alguma coisa(ou alguém), mas isso não quer dizer que o tenha feito. Tratei uma pessoa com a mais pura sinceridade dos meus sentimentos, e já que não tínhamos laços coube a ela ouvir e, nesse caso, repassar a informação, o que é um direito seu. Mas no momento em que a informação chegou a terceiros já havia passado o momento, pois ela mesma havia me convencido das coisas certas que por vezes ignoramos, devido a instantaneidade dos acontecimentos. Olha só, isso foi quase um pedido de desculpas. Mas particularmente pra você, eu sou meio orgulhosa. É uma desculpa velada, mas não hipócrita. E eu também perdôo suas ofensas.     

Eu tenho que estudar agora. Mas o que eu queria mesmo era calçar um tênis e correr, correr, correr até o horizonte, até o sol se pôr. Jogar umas pedrinhas no rio. Abraçar alguém querido por muito tempo. Rever uma amiga que não vejo há séculos e ouvir pacientemente todas as suas histórias. Pegar um ônibus e saltar em qualquer estação aleatória. Tomar um café com chantilly e comer bolo de laranja fresco em copacabana, naquele lugar de sempre. Saudades de ter tempo.

Só pra ficar registrado.

sweetness

Sorri

Postado em Uncategorized em Outubro 17, 2009 por isisdesigner

quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doloridos

Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
Charles Chaplin

Um paradoxo não é só um recurso estético afinal, ele existe de verdade. Podemos nos sentir tristes e felizes ao mesmo tempo. Eu agradeço por ter encontrado aquilo que no subconsciente eu deveria saber que precisava. Uma conversa que meus amigos não poderiam me dar com essa franqueza, com a verdade que eles desconheceriam ou diriam a mim cheios de eufemismos. Não sei se foi essa a sua intenção, se foi seu jeito ou a imparcialidade com que se fala a um quase desconhecido. Seja lá o que for, agradeço incomensuravelmente mesmo assim.  

De uns tempos pra cá vivo desmitificando minhas intenções, revelando a mim mesma o que verdadeiramente está por dentro. Mas há assim situações tão complexas que uma bruma cobre meus olhos e não tenho forças para ir de encontro àquilo que meu coração se rejeita e se defende. Que tragédia é saber que você está tentando se enganar para sofrer menos. Melhor seria encarar tudo de uma vez, reconhecer as coisas como são, dar a cara a tapa(num conflito entre eu e eu), e depois da ressaca o mar voltar a ser calmo. Com uma cor diferente, talvez um verde-escuro, mas depois de dias cinzentos sempre aguardamos o dia em que o sol vai voltar.

Mas essa verdade que talvez ferisse meu orgulho e minha tentativa de me privar de sofrimento não foi assim tão dolorosa. Trouxe  tranqüilidade. Fez eu esquecer de coisas ruins que poderia ter feito a outras pessoas. Lavou meus olhos de que a realidade, apesar de seca e dessaborosa pode ser mais calma e menos traumática na relação eu e os outros. Me sinto apática, mas uma indiferença de um dia nublado. Sem arco-íris, mas também sem trovões. Só de me deparar com a verdade já me sinto menos agitada. E menos assassina.

O que vem agora eu não sei. Mas me sinto num hiato.

Desistir de um sonho

Postado em Uncategorized em Outubro 16, 2009 por isisdesigner

me faz matar um pedaço de mim.
Flávio Wetten

Hoje tive que escrever uma redação sobre a minha concepção de felicidade. Foi fria e ilógica, nada é perfeito.  

Acho que somos mesmo uma tábula rasa, mas vou utilizar uma metáfora mais confortável: uma pedra bruta. Esculpidos ou lascados com as quedas somos o que somos, uma obra modificada continuamente por agentes externos. E o que criamos em nós? Aquilo que abraçamos como certo e usamos como colunas de nossos ideais? É a liberdade de acreditar no que você quiser. Góticas, barrocas ou gregas, seja lá o que for é aquilo que escolheu.

Ao amar minhas escolhas dei início ao funeral dos sonhos que nasceram delas. Já imaginaram acreditar em coisas extremamente inalcançáveis? É criar um órgão doente. Um dia ele morre, e você tem que substituir por outro. Será como antes? Ele vai sofrer rejeição? Dá pra comer no prato que se cuspiu? Afirmar que se é irrevogavelmente contra alguma coisa é pedir para que lhe mostrem que nem tudo é como imaginávamos que seria. Nunca fui dura. Só comigo mesma. Mas não aceitava para os outros certas coisas pois acreditava que havia possibilidade de ser diferente. Não há. Não quero que me digam o contrário, como eu já fiz um dia, não quero que me provem nem mostrem estudos nem nada. Eu não quero saber de nada, não quero pensar em mais nada. E assim se fecham os olhos, e assim cerra a imaginação, e assim se afogam as palavras, e assim dou o ponto final. Mas de tanto se por para dentro, um dia as palavras talvez voltem como vômito, independente da sua vontade, trazendo desconforto e desespero que parecem não ter fim, até que você se sinta aliviado… ou não.

Mataram um pedaço de mim. Era uma linda parte, mas muito besta. Era uma coisa que me trazia felicidade como o cheiro de uma caixa de lápis-de-cor ou a sensação de se cortar um pedaço de cartolina com uma tesoura. Era algo que fazia eu me sentir especial, como se os meus olhos vissem o que a maioria ignorava. Mataram em mim uma espécie de esperança, algo bobo que fazia eu permanecer em pé sem que eu notasse. Agora percebi que isso me faz falta. Não ligava que fosse boba, eu gostava dela. Mas devemos apesar de, disse Clarice.

Há alguém que quando está perto me faz esquecer dessa parte perdida, como uma droga anestesiante. Mas quando ele se afasta a dor volta. Enquanto não se preencher esse buraco vivo assim, não só viciada como melancolicamente necessitada de sua presença. Que não se fatigue nesse meu momento de fraqueza, porque passada a recuperação prometo voltar ao meu vício controlado. Tolere minha dependência solitária só enquanto me recobro…    

Amo a liberdade, por isso deixo as coisas que amo livres. Se elas voltarem é porque as conquistei. Se não voltarem é porque nunca as possuí.

If your right hand is causing you pain,

Postado em Uncategorized em Setembro 13, 2009 por isisdesigner

Cut it off, cut it off.
Flux, Bloc Party 

Quero um scarpin rosa, uma saia de cintura alta preta, uma legging preta metálica, The Fame e minha tinta rosa. É assim que as coisas funcionam, não? Se ninguém se lixa, porque eu deveria me importar?

Quem precisa viver num lugar em que o custo de vida é alto? Se for pra pagar a conta de luz com o dinheiro da conta de água, então vou viver na França. Ou me tornar figurante de fundo verde em clipe do Hot Chip. Dane-se, eu não quero mais isso. O primeiro que disser frases de consolo terá morte súbita. (“isis castiga”)

É um dia com sol e céu azul para 6 dias e meio de cárcere, dos piores, espiritual. Porque mesmo quando você se dá ao luxo de desfrutar do seu horário de almoço sem um livro embaixo do braço, sempre tem um miserável estudando na mesa ao lado, ou dentro da sua cabeça. Preciso estudar mais, não quero, não dá. Nos primeiros meses era aquela frescurinha de enrolar depois do ônibus das 18h, ainda dava pra fazer uma liçãozinha ou adiantar alguma coisa. Agora tudo beira à fatiga física, produzo tanto quanto… nada.

Puxei de volta umas lágrimas. Não por não ter conseguido, não por achar difícil, não por querer ser a melhor(não quero nem perto), não por tudo isso, é só por querer nunca ter tocado nisso.  

Enganaram-me o tempo todo, tenho 1,65m. Quero voltar a ser grande.

she is marvelous

[ Ouvindo: Peter, Bjorn & John ~ Young Folks ]

And we don’t care about the young folks
Talkin’ ’bout the young style
And we don’t care about the old folks
Talkin’ ’bout the old style too
And we don’t care about their own faults
Talkin’ ’bout our own style
All we care ’bout is talking
Talking only me and you

Não me corrija.

Postado em Uncategorized em Agosto 19, 2009 por isisdesigner

A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.
Clarice Lispector

Cada dia é uma vírgula que imponho no meu andar sôfrego, tropeça em si. Não sei se quero ver a frente ou no que piso, se quero que passe ou que fique, que esfrie ou que aqueça. É uma tragédia o que se impõe, ter de escolher entre dois momentos distintos… O tempo é mesmo uma coisa traiçoeira: queremos que acelere sem se perder, e que chegue. O melhor mesmo é que nossos pedidos não sejam atendidos e o tempo demore o tempo que seja.

Café me deixa depressiva. Às vezes queremos nos forçar a transpirar palavras que não exalamos, quando o mais espontâneo que podemos fazer é admitir a falta de inspiração (importante que, à medida que escrevo, me contradigo).

( Quando você descobre que quer passar o resto da sua vida com alguém, você quer que o resto da sua vida comece o mais rápido possível. )

 

Pseudo-post (aquele que pensa mas não foi) criado especialmente para uma tarefa ;*

girl in the sky

É tão difícil falar e dizer coisas

Postado em Uncategorized em Agosto 14, 2009 por isisdesigner

que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar. Olhei pra você fixamente por instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade.
Clarice Lispector

Sou de extremos. Quando comecei nova a pintar as unhas, era sempre branco branco branco. O tempo passou e sou vermelho rosa vermelho rosa, cabelo rosa roxo rosa vermelho azul. Aonde fica o caminho do meio budista? Sou uma bêbeda passeando na retidão da vida.

A minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca. Drummond. Quando morrer, quero ter o privilégio de espiar até onde minha vidência é certa e onde foi que delirei. Não acredito em mim, prefiro confiar nos outros. E quem sabe? Queria ter o direito de me querer, nas minhas vontades indelicadas, repudiadas. Mas prefiro conter minha maldade, porque passa, se digerem. Porque se me render à fraqueza, que me resta? A inteligência mediana, a beleza mediana, a criatividade mediana? Amamos tudo isso, mas sei o que não toleram.

 

Drummond me alcança. Porque de longe, só muita literatura para eu lembrar

 

heartbeat

Porque eu sou do tamanho daquilo que sinto,

Postado em Uncategorized em Julho 20, 2009 por isisdesigner

que vejo e que faço, não do tamanho que as pessoas me enxergam.
Carlos Drummond de Andrade

Um dia sonhei que era flores num campo de coisas que crescem sozinhas e sem motivo. Elas não são mais bonitas nem mais feias porque não há ninguém que as veja e faça essa distinção. Eram flores quaisquer num campo de muito sol com espaço para quem deitasse desaparecer. Não eram mais fortes as cores nem mais túrgidas porque ninguém usava adubo especial, eram apenas as flores o sol a chuva. Uma vez havia alguém passando que recolhesse umas flores, mas não as uniu por especificação nem pegou as maiores, pegou um maço porque era visto que todas eram bonitas. As pequenas, as grandes, as pouco coloridas e as sem cor. Elas foras juntas não com papel especial e decorado nem com mais plantas que valorizassem aquelas mais bonitas, eram todas uma mistura de flores do campo presas apenas por uma fita rosa. Então eu era flores, eu era a caligrafia do pequeno cartão branco no envelope branco junto do ramo de flores do campo enroladas numa fita rosa. Eu perfumei e alegrei a vida de alguém por muitos dias, e morri. Morri porque tinha de morrer, porque tudo que é vivo morre, e flores tem vida prolongadamente curta.

Acordei depois de uns anos e era só um sonho.

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